Reviews e Análises
O Estrangeiro – Crítica
por Felipe Laganá
“O Estrangeiro” é o novo filme de François Ozon (do também ótimo “O Crime é Meu“), que estréia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (16/04). O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome, clássico da literatura de Albert Camus, cultuado escritor e filósofo franco-argelino. O filme conta a história de Meursault (Benjamin Voisin), um morador apático da Argélia nos anos 1930, que acaba vivenciando uma série de acontecimentos como a morte da mãe, o início de um relacionamento amoroso com uma antiga conhecida, Marie (Rebecca Marder), e eventualmente, um confronto na praia, que acaba o levando a ser julgado.
Meursault é um protagonista extremamente apático, no sentido mais puro da palavra, e esse traço de sua personalidade é de extrema importância para o desenvolver da trama e para os ares filosóficos que a história traz. François Ozon decide filmar em preto e branco, dando ao longa uma atmosfera muito única, remetendo diretamente à época em que a história se passa. Por sinal, a fotografia é um dos grandes acertos do filme, que consegue manter e contribuir com esse clima antigo e muitas vezes tenso durante as duas horas de duração.
A apatia de Meursault durante o começo da história é algo sutil, mas que conforme a trama avança, se torna bem clara para os espectadores, conforme ele quase assume o papel de protagonista espectador, apenas presenciando os eventos que ocorrem à sua volta. Esse fator de sua personalidade passa a incomodar outros personagens, como Marie, sua amante, que não compreende quando se declara a ele, e nada recebe de volta. A primeira metade do filme trabalha muito com o silêncio de Meursault, conforme ele vai explorando sua memória em uma narrativa baseada completamente nos “flashbacks”, justificando ainda mais o uso da fotografia em preto e branco que brilha aos olhos.
A segunda metade do filme é totalmente diferente. Agora no tribunal, após cometer um crime, o longa adota uma abordagem muito mais dinâmica para os acontecimentos. O julgamento de Meursault é tenso do início ao fim, e se antes ele escolhia colocar-se em posição de espectador, aqui é obrigado a observar seu próprio destino nas mãos dos advogados de defesa e da promotoria. Conforme o juízo de Meursault é finalizado, ele passa a questionar sobre os aspectos filosóficos que o levaram a estar nessa posição.

O Estrangeiro, de François Ozon, é uma bela obra sufocante, que trata sobre o existencialismo de maneira fenomenal através do protagonismo silencioso e apático, questionando suas próprias ações e sentimentos. Com uma fotografia estonteante e um trabalho excepcional do uso dos silêncios, o longa é uma ótima adaptação e obra cinematográfica, funcionando muito bem até mesmo para os não familiarizados com o trabalho do diretor ou com a obra original de Camus.
Nota: 4,5 de 5
Reviews e Análises
O Fim da Rua – Crítica
O Fim da Rua, novo filme de David Robert Mitchell (Corrente do Mal e Under the Silver Lake), chega aos cinemas com uma proposta bastante curiosa: transportar uma típica vizinhança suburbana dos anos 1980 para um ambiente completamente desconhecido, colocando seus moradores diante de uma ameaça pré-histórica. Estrelado por Anne Hathaway (Interestelar e Odisseia) e Ewan McGregor (Star Wars), o longa mistura ficção científica, suspense, ação e terror para acompanhar uma família tentando sobreviver depois que seu bairro é misteriosamente deslocado para um mundo dominado por dinossauros.
Um dos grandes destaques de O Fim da Rua está na maneira como Mitchell utiliza o espaço em tela para compor as cenas. O filme foi pensado para o IMAX, e isso fica bastante evidente durante todo o filme. O diretor aproveita muito bem a imensa amplitude da tela para criar situações visualmente criativas. O diretor brinca muito com a quase onisciência do espectador, que possui uma visão quase total dos perigos que se aproximam por trás dos personagens.
Anne Hathaway, como já é de se esperar, está sensacional. A atriz consegue entregar uma protagonista carismática e convincente, carregando boa parte dos momentos dramáticos do longa com bastante segurança. Ewan McGregor também funciona muito bem em seu papel, enquanto Christian Conway e Maisy Stella cumprem bem os papéis do elo mais frágil e imprudente da família, como os filhos do casal.

O problema é que o roteiro não acompanha a criatividade da direção. O Fim da Rua possui uma premissa que poderia render uma história muito mais ousada, mas escolhe caminhos extremamente genéricos e, em alguns momentos, acovardados. Além disso, o filme parece constantemente em soluções fáceis e diálogos bastante expositivos cansativos. Apesar de a história apresentar conflitos familiares e diferentes personalidades dentro daquele grupo, falta tempo e espaço para que eles realmente se desenvolvam. Os arcos acabam parecendo corridos e, consequentemente, muitos dos momentos que deveriam representar transformações importantes não possuem o impacto necessário.
Felizmente, quando decide simplesmente abraçar seu lado mais “simples”, O Fim da Rua funciona muito melhor. O diretor demonstra uma boa compreensão de como criar expectativa sem depender exclusivamente de sustos (que quando aparecem, são genuinamente surpreendentes), construindo a ameaça de maneira gradual. E há também um senso de humor bastante peculiar na violência. O filme sabe quando exagerar e transformar situações brutais em momentos genuinamente engraçados, criando uma combinação curiosa entre ação, horror e comédia. É justamente nesses momentos que O Fim da Rua encontra uma identidade própria e consegue ser uma experiência divertida, mesmo quando seu roteiro não está à altura de sua proposta.
No fim das contas, O Fim da Rua é um filme que possui uma direção visual bastante competente e algumas sequências realmente divertidas, mas acaba limitado por um roteiro pouco corajoso e personagens que não recebem desenvolvimento suficiente. David Robert Mitchell demonstra novamente que sabe construir imagens e atmosferas interessantes, mas sua nova obra parece menos interessada em explorar todo o potencial de sua premissa do que poderia. Uma experiência divertida, com boas atuações, ação eficiente e uma utilização verdadeiramente impressionante do IMAX, mas que deixa aquela sensação de potencial desperdiçado.
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Andreia D'Oliveira
14 de abril de 2026 at 11:49
Felipe,
Lendo sua crítica, me convenci que tenho que assistir esse filme pra ontem! Explico: O que você descreve é exatamente o tom da narrativa do livro. “O Estrangeiro” de Camus foi a obra mais angustiante que li na vida (e olha que tenho na bagagem “Memórias do Subsolo” do Dostô)
Se não leu o romance, dê uma chance! Acho que você vai gostar 😉