Reviews e Análises
Anatomia do Caos – Crítica
“A gente não elabora o luto no silêncio do esquecimento.” É com essa frase, que soa como um aviso e uma sentença, que começa Anatomia do Caos, documentário dirigido por Dandara Ferreira sobre a CPI da Pandemia, realizada pelo Senado Federal em 2021 para investigar a condução do Governo Federal diante da maior tragédia sanitária da história recente do Brasil.
Mais do que um registro parlamentar, o filme é uma crônica do desastre. Acompanhando os bastidores e as sessões da comissão, o documentário segue figuras como os senadores Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros enquanto, depoimento após depoimento, vai se desenhando o retrato de um país ao mesmo tempo à deriva e atônito. A narrativa reconstrói cronologicamente o trabalho da CPI, mas seu objetivo maior é revelar aquilo que muitos brasileiros sentiram na pele: a impressão de que a morte em massa não foi apenas consequência da pandemia, mas também de escolhas políticas deliberadas, entre elas a insistência na tese da imunidade de rebanho.
O filme revisita algumas das páginas mais sombrias daqueles anos. O colapso do sistema de saúde em Manaus e a falta de oxigênio que transformou hospitais em câmaras de desespero; a defesa obstinada de medicamentos sem eficácia comprovada; a campanha permanente de descrédito contra as vacinas; e as denúncias de irregularidades em negociações para sua aquisição. Cada episódio, isoladamente, já seria estarrecedor. Juntos, formam uma anatomia da negligência.

Mas é em seus momentos finais que Anatomia do Caos deixa de ser apenas um documentário político para se tornar um poderoso memorial das vítimas. Os depoimentos de familiares de pessoas mortas pela Covid arrancam a discussão do campo das estatísticas e a devolvem ao terreno da dor humana. Entre eles, a fala de Márcio Antônio Silva é devastadora em sua simplicidade: “Minha dor não é mimimi.” Ao ressignificar uma frase dita pelo então presidente Jair Bolsonaro, ele transforma uma expressão de desprezo em um grito de dignidade. É impossível ouvir aquelas palavras sem sentir um nó na garganta e uma profunda indignação.
O desfecho é tão doloroso quanto previsível. Depois de meses de investigação, milhares de páginas de documentos e um relatório que apontava responsabilidades, o filme registra o esvaziamento das consequências. O arquivamento do relatório pela Procuradoria-Geral da República é retratado como o último ato de uma tragédia nacional: mais de 700 mil brasileiros morreram, ninguém foi preso, ninguém foi condenado e ninguém pediu desculpas.
Por isso, Anatomia do Caos é mais do que um documentário sobre a pandemia. É um ato de resistência contra o esquecimento. Um registro histórico de um país que viu seu povo sofrer enquanto o poder hesitava, negava e, muitas vezes, zombava da própria tragédia. É também um lembrete amargo de que as feridas da pandemia permanecem abertas, porque a justiça, para milhares de famílias brasileiras, ainda não chegou.
Nota: 4,5 de 5
Reviews e Análises
O Fim da Rua – Crítica
O Fim da Rua, novo filme de David Robert Mitchell (Corrente do Mal e Under the Silver Lake), chega aos cinemas com uma proposta bastante curiosa: transportar uma típica vizinhança suburbana dos anos 1980 para um ambiente completamente desconhecido, colocando seus moradores diante de uma ameaça pré-histórica. Estrelado por Anne Hathaway (Interestelar e Odisseia) e Ewan McGregor (Star Wars), o longa mistura ficção científica, suspense, ação e terror para acompanhar uma família tentando sobreviver depois que seu bairro é misteriosamente deslocado para um mundo dominado por dinossauros.
Um dos grandes destaques de O Fim da Rua está na maneira como Mitchell utiliza o espaço em tela para compor as cenas. O filme foi pensado para o IMAX, e isso fica bastante evidente durante todo o filme. O diretor aproveita muito bem a imensa amplitude da tela para criar situações visualmente criativas. O diretor brinca muito com a quase onisciência do espectador, que possui uma visão quase total dos perigos que se aproximam por trás dos personagens.
Anne Hathaway, como já é de se esperar, está sensacional. A atriz consegue entregar uma protagonista carismática e convincente, carregando boa parte dos momentos dramáticos do longa com bastante segurança. Ewan McGregor também funciona muito bem em seu papel, enquanto Christian Conway e Maisy Stella cumprem bem os papéis do elo mais frágil e imprudente da família, como os filhos do casal.

O problema é que o roteiro não acompanha a criatividade da direção. O Fim da Rua possui uma premissa que poderia render uma história muito mais ousada, mas escolhe caminhos extremamente genéricos e, em alguns momentos, acovardados. Além disso, o filme parece constantemente em soluções fáceis e diálogos bastante expositivos cansativos. Apesar de a história apresentar conflitos familiares e diferentes personalidades dentro daquele grupo, falta tempo e espaço para que eles realmente se desenvolvam. Os arcos acabam parecendo corridos e, consequentemente, muitos dos momentos que deveriam representar transformações importantes não possuem o impacto necessário.
Felizmente, quando decide simplesmente abraçar seu lado mais “simples”, O Fim da Rua funciona muito melhor. O diretor demonstra uma boa compreensão de como criar expectativa sem depender exclusivamente de sustos (que quando aparecem, são genuinamente surpreendentes), construindo a ameaça de maneira gradual. E há também um senso de humor bastante peculiar na violência. O filme sabe quando exagerar e transformar situações brutais em momentos genuinamente engraçados, criando uma combinação curiosa entre ação, horror e comédia. É justamente nesses momentos que O Fim da Rua encontra uma identidade própria e consegue ser uma experiência divertida, mesmo quando seu roteiro não está à altura de sua proposta.
No fim das contas, O Fim da Rua é um filme que possui uma direção visual bastante competente e algumas sequências realmente divertidas, mas acaba limitado por um roteiro pouco corajoso e personagens que não recebem desenvolvimento suficiente. David Robert Mitchell demonstra novamente que sabe construir imagens e atmosferas interessantes, mas sua nova obra parece menos interessada em explorar todo o potencial de sua premissa do que poderia. Uma experiência divertida, com boas atuações, ação eficiente e uma utilização verdadeiramente impressionante do IMAX, mas que deixa aquela sensação de potencial desperdiçado.
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