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Reviews e Análises

A Própria Carne – Crítica

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Após a primeira sessão de A Própria Carne, fica evidente que o filme marca um novo capítulo para o cinema de terror produzido no Brasil. Historicamente, o cinema de gênero nacional sempre se concentrou nas comédias, raramente explorando a ficção científica ou o horror. Neste último, o grande nome sempre foi o saudoso José Mojica Marins, o lendário Zé do Caixão.

Com À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964), Mojica criou um ícone e inaugurou o terror autoral brasileiro — um cinema de baixo orçamento, mas repleto de potência simbólica, que dialogava com temas como morte, religiosidade e moralidade. É justamente essa essência que A Própria Carne resgata nas telas, mais de sessenta anos depois.

O filme acompanha três soldados desertores da Guerra do Paraguai que, ao fugirem de um problema, acabam se envolvendo em outro ainda mais macabro ao buscarem refúgio em uma fazenda isolada. Lá, encontram um velho fazendeiro e uma jovem mulher — e enfrentam o maior terror de suas vidas.

A tensão, presente do início ao fim, cria uma atmosfera claustrofóbica que mantém o espectador em constante apreensão. A direção precisa e segura de Ian SBF — conhecido por seus trabalhos em Porta dos Fundos e Sociedade da Virtude — conduz a narrativa com equilíbrio entre suspense e horror visceral, evitando sustos fáceis e escapando, tanto quanto possível, dos clichês do gênero.

O roteiro, assinado por Alexandre Ottoni, Deive Pazos, do Jovem Nerd, e o próprio Ian SBF, explora com sensibilidade as motivações e os dilemas dos protagonistas, revelando aos poucos as camadas do vilão e construindo um clímax intenso, culminando em um verdadeiro banho de sangue.

Embora ambientado em um contexto histórico brutal como a Guerra do Paraguai, o longa não se aprofunda nesse pano de fundo — em parte, por conta das limitações orçamentárias. Ainda assim, algumas inserções adicionais que remetesse aos horrores da guerra poderiam ter ampliado a densidade da trama e reforçado a jornada dos três desertores.

Divulgação – A Própria Carne. Todos os direitos reservados.

O elenco é um destaque à parte. Jorge Guerreiro, Pierre Baitelli e George Sauma interpretam os soldados com entrega e autenticidade, com ênfase em Guerreiro, cujo personagem, Gustavo — um ex-escravo em busca de liberdade —, ganha força e complexidade ao reagir de forma cada vez mais instintiva às armadilhas da vida.

O grande destaque, porém, é Luis Carlos Persy, que vive o Fazendeiro e vilão do filme. Conhecido por suas dublagens marcantes — como Voldemort, da saga Harry Potter, e Joel, de The Last of Us —, Persy transforma sua voz grave e gutural em uma ferramenta de terror, criando um antagonista dúbio e hipnotizante, capaz de roubar todas as cenas. Jade Mascarenhas, como a misteriosa Garota, também entrega uma performance instigante e merecia mais tempo em tela.

Apesar de se perder ocasionalmente em algumas referências, A Própria Carne representa um sopro de vitalidade para o terror brasileiro. Se conquistar o público, pode abrir caminho para uma nova geração de filmes de horror nacionais. Um brinde ao renascimento do terror brasileiro — em um cálice repleto de sangue.

Nota: 4 de 5

Avaliação: 4 de 5.

O filme estreia em 30 de outubro em salas selecionadas.

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O Fim da Rua – Crítica

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O Fim da Rua, novo filme de David Robert Mitchell (Corrente do Mal e Under the Silver Lake), chega aos cinemas com uma proposta bastante curiosa: transportar uma típica vizinhança suburbana dos anos 1980 para um ambiente completamente desconhecido, colocando seus moradores diante de uma ameaça pré-histórica. Estrelado por Anne Hathaway (Interestelar e Odisseia) e Ewan McGregor (Star Wars), o longa mistura ficção científica, suspense, ação e terror para acompanhar uma família tentando sobreviver depois que seu bairro é misteriosamente deslocado para um mundo dominado por dinossauros.

Um dos grandes destaques de O Fim da Rua está na maneira como Mitchell utiliza o espaço em tela para compor as cenas. O filme foi pensado para o IMAX, e isso fica bastante evidente durante todo o filme. O diretor aproveita muito bem a imensa amplitude da tela para criar situações visualmente criativas. O diretor brinca muito com a quase onisciência do espectador, que possui uma visão quase total dos perigos que se aproximam por trás dos personagens.

Anne Hathaway, como já é de se esperar, está sensacional. A atriz consegue entregar uma protagonista carismática e convincente, carregando boa parte dos momentos dramáticos do longa com bastante segurança. Ewan McGregor também funciona muito bem em seu papel, enquanto Christian Conway e Maisy Stella cumprem bem os papéis do elo mais frágil e imprudente da família, como os filhos do casal.

O problema é que o roteiro não acompanha a criatividade da direção. O Fim da Rua possui uma premissa que poderia render uma história muito mais ousada, mas escolhe caminhos extremamente genéricos e, em alguns momentos, acovardados. Além disso, o filme parece constantemente em soluções fáceis e diálogos bastante expositivos cansativos. Apesar de a história apresentar conflitos familiares e diferentes personalidades dentro daquele grupo, falta tempo e espaço para que eles realmente se desenvolvam. Os arcos acabam parecendo corridos e, consequentemente, muitos dos momentos que deveriam representar transformações importantes não possuem o impacto necessário.

Felizmente, quando decide simplesmente abraçar seu lado mais “simples”, O Fim da Rua funciona muito melhor. O diretor demonstra uma boa compreensão de como criar expectativa sem depender exclusivamente de sustos (que quando aparecem, são genuinamente surpreendentes), construindo a ameaça de maneira gradual. E há também um senso de humor bastante peculiar na violência. O filme sabe quando exagerar e transformar situações brutais em momentos genuinamente engraçados, criando uma combinação curiosa entre ação, horror e comédia. É justamente nesses momentos que O Fim da Rua encontra uma identidade própria e consegue ser uma experiência divertida, mesmo quando seu roteiro não está à altura de sua proposta.

No fim das contas, O Fim da Rua é um filme que possui uma direção visual bastante competente e algumas sequências realmente divertidas, mas acaba limitado por um roteiro pouco corajoso e personagens que não recebem desenvolvimento suficiente. David Robert Mitchell demonstra novamente que sabe construir imagens e atmosferas interessantes, mas sua nova obra parece menos interessada em explorar todo o potencial de sua premissa do que poderia. Uma experiência divertida, com boas atuações, ação eficiente e uma utilização verdadeiramente impressionante do IMAX, mas que deixa aquela sensação de potencial desperdiçado.

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