06 de agosto de 2019 Reviews e Análises

Seria uma boa morte... mas não boa o bastante.

Muito já se falou sobre The Dark Knight Returns - ou como ficou conhecida no Brasil Batman: O Cavaleiro das Trevas - e não é difícil entender o motivo: a obra mais famosa de Frank Miller não mudou apenas a trajetória de seu protagonista, mas ajudou a sedimentar uma nova forma de realizar histórias em quadrinhos, que agora destacavam suas personagens de uma bidimensionalidade superficial para uma tridimensionalidade complexa, calcada em um - possível - mundo real.

Quando Miller imagina o mundo em que o vigilantismo é proibido e o único super-herói em atividade é o Superman - encoleirado pelo governo dos EUA - ele já tinha consagrando-se na indústria por alavancar as vendas de Demolidor, no início dos aos 80, e por ter produzido, junto com Chris Claremont, a minissérie Wolverine.

O tom mais adulto e violento, mostrando Bruce Wayne não como o excêntrico milionário fantasiado em busca de vingança, mas como um homem amargurado e assombrado pelo seu passado - na melhor versão de Dirty Harry depois de Clint Eastwood, que Miller confessou ser uma de suas referências - cala tão fundo no imaginário dos fãs que parece ter sido a escolha mais óbvia não só de Tim Burton, em seu Batman de 1989, mas também de Christopher Nolan na trilogia terminada em 2012 e em Batman vs Superman de Zack Snyder.

Na HQ, com os super-heróis aposentados e a crescente onda de calor e violência em Gotham City, o Cavaleiro das Trevas ressurge com todas as limitações de sua idade, acompanhado de uma garota vestindo o manto do Menino Prodígio e disposto a limpar a cidade de uma nova ameaça, a gangue que se intitula "mutantes", nem que isso culmine em um duelo com o homem mais poderoso do mundo: o Superman.

Neste universo Miller traz de volta o Coringa (que sai de um estado catatônico de cinco anos ao ver o retorno de Batman em uma reportagem de TV), Harvey Dent, Selina Kyle e Oliver Queen, o Arqueiro Verde, que tem a melhor participação de todos os tempos!

O Cavaleiro das Trevas trata a trajetória de um homem, então nada mais crível que colocá-lo em um “mundo real” possível, mesmo que esse homem seja o Batman. Mas, como tornar verossímil seres superpoderosos vivendo conosco, fazendo o que acreditam que deve ser feito?

Para responder isso, convido você a voltar à década de 1980.

 O mundo todo teme a ameaça global de um inverno nuclear como desdobramento da Guerra Fria, principalmente após o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, retomar no início da década o projeto de construção de armas nucleares (Projeto Guerra nas Estrelas) com o objetivo de combater a União Soviética. As manchetes mudavam apenas o número de vezes que os Estados Unidos e a Russia poderiam acabar com o planeta (variando sempre entre 200 e 250, esquecendo que era preciso apenas uma para que todo mundo morresse) ancoradas no suposto poderio militar das duas superpotências.

Nos Estados Unidos a cobertura da mídia televisiva nunca tinha sido tão eloquente tanto nos casos de seriais killers (são contabilizados pelo menos 200 assassinos em série neste período, tendo entre eles John Wayne Gac, Jeffrey Dahmer e Ted Bundy), quanto da violência crescente devido ao aumento da criminalidade em centros urbanos como Nova York. Também neste período ocorreu o maior número de mortes devido ao calor, estimando que as altas temperaturas poderiam ter matado em todo país aproximadamente 1500 pessoas.

O Cavaleiro das Trevas é um espelho da sua sociedade, que naquele momento acompanha tudo pela tela da TV: as declarações (ou não declarações) dos políticos; pronunciamentos presidenciais sobre a guerra; variação térmica, contada de grau em grau; escalada da violência seguindo o surgimento de cada nova gangue; psicólogos discutindo sobre psicopatas, além de trazer algumas doses de entretenimento como um filme antigo, de um certo justiceiro mascarado, estrelado por Tyrone Power.

Isso deveria ser o bastante, mas Frank Miller faz mais: tira Batman da aposentadoria e o alça à galeria dos heróis da antiguidade clássica. Heróis não desaparecem, simplesmente, eles são exaltados, lembrados por decorrência de sua morte em batalha, de seu sacrifício, de sua "bela morte".

Se antes os quadrinhos tentavam aproximar seus assuntos e personagens de seu público alvo, Cavaleiro das Trevas aproxima-nos do mundo que está a nossa volta, tendo tempo ainda de apresentar que lugar o vigilantismo teria nele, discussão que seria ampliada de forma ainda mais profunda e filosófica em Watchmen de Allan Moore.