01 de março de 2019 Reviews e Análises

Personagens de quadrinhos tem reboots recorrentes. Suas origens são contadas e recontadas, tentando conectar as novas gerações com as personagens, que hoje são, pelo menos, cinquentenárias. Então por que Demolidor: O homem sem medo parece ser muito mais que um simples herói?

Em sua estreia, no ano de 1964, Demolidor aparece sob a alcunha de “o primeiro e único super-herói cego”. A trajetória de Matt tem início em um título próprio (Daredevil #01) criado por Stan Lee e Bill Everett e grande parte do universo do herói já nos é apresentado nesse volume: a infância em Nova York, mais especificamente em Hell’s Kitchen (Cozinha do Inferno); o acidente que transforma seus sentidos; o amigo Foggy Nelson, com quem abre o escritório Nelson & Murdock e; a secretária do escritório e interesse romântico de Matt, Karen Page.


Demolidor #01, de 1964

Com o passar dos anos, tornando-se menos popular que Homem-Aranha e Capitão América, as publicações de Demolidor tiveram um período de decadência até colocarem a personagem nas mãos de Frank Miller, que tem como intenção fazer uma graphic novel, mas que acaba tornando a nova história em cânone de DD.

Como fez na década de 80 com Batman em Batman: Ano Um, Frank Miller, em 1993, reconstrói as origens da personagem em Demolidor: O homem sem medo narrando a trajetória de Matt Murdock, como o único filho do boxeador decadente Jack “Trabalhador” Murdock, desde sua infância entre os bullys e as pequenas contravenções na Cozinha do Inferno, até transformar-se no justiceiro Demolidor que travará uma guerra contra o crime organizado, dominado pelo “chefão” Wilson Fisk, mais comumente conhecido como Rei do Crime, sem esquecer-se do amigo Foggy Nelson e já antecipando o romance de Matt com Eléktra.

Textos mais despojados (“Demolidor! Um nome novinho em folha no mundo dos super-heróis!”) são substituídos por uma narração mais séria (“Foi naquele momento de fria determinação… o momento em que a vida de Mickey estava em jogo… o momento em que seu lado selvagem se viu calmo e sereno… o momento em que Matt Murdock se tornou homem… foi naquele momento singular que o nome retornou. Demolidor”), inspiradas nos filmes noir, característica bastante presente — em maior ou menor grau — nas obras de Miller, que cabem como uma luva em Demolidor. Na minissérie em cinco volumes, o detetive linha dura é o justiceiro mascarado linha dura, enquanto a dama fatal, é mais que uma mulher sexy, mas uma rival em potencial, Eléktra, complementam a visão da Cozinha do Inferno, a área degradada, escura e decadente da brilhante ilha de Manhattan.

A grande sacada de Miller é não colocar como única motivação de Matt a vingança.

Murdock vingou- se. Liquidou os homens que mataram seu pai. No processo, matou uma mulher inocente, ou que, pelo menos, não tinha nada a ver com a morte de Jack. Tentou manter-se longe, foi para Havard, tornou-se advogado e quando poderia ter mais uma vez fugido do que precisava fazer, ele percebeu que não poderia. Salvando uma garota que mal conhecia, percebeu que o garoto da Cozinha do Inferno tinha voltado pra casa.


Demolidor: O Homem sem medo, de 1993