26 de janeiro de 2019 Reviews e Análises

Nós dois estávamos na velha cafeteria. Julho. Lá fora, um homem macilento tentava, em vão, livrar-se dos pingos da garoa. Poderia ser Londres, mas era São Paulo.
De repente, alguém fez-me voltar. Meu amigo, à esquerda, chama-me a atenção ao falar do mago e de seus estratagemas – ora simplórios, ora ousados – que o ajudaram a enganar os Três Caídos e a curar-se de um câncer de pulmão terminal. Fala desse homem, com pecados demais para ousar morrer. Embriagada pelo ar quente do lugar e completamente absorvida pelo horror fantástico da narrativa, sussurro, de forma quase inaudível: “Ele é um gênio”. Meu amigo, prontamente, corrigiu-me, levantando-se para ascender um cigarro: "Gênio? Talvez, mas principalmente um grande Filho da Puta".

A cena acima – guardando, claro, as licenças poéticas – realmente aconteceu. Foi assim que conheci John Constantine, apresentado-me por meu grande amigo em 2000.

O arco? Hellblazer: Hábitos Perigosos, escrita por Garth Ennis e com a perturbadora arte de Will Simpson. Para aqueles que nunca leram os quadrinhos, mas assistiram ao filme, esta é a história na qual o longa foi baseado.


Nas Hqs, assim como no filme, John Constantine está morrendo em decorrência de um câncer no pulmão, conseguido pelo consumo contumaz de incontáveis maços de cigarro. Ao receber a má notícia, ele decide visitar seu amigo Brendan, que talvez possa livrá-lo da doença. O que John não poderia adivinhar é que, assim como ele, Brendan também estava morrendo, mas de cirrose. Quando o amigo morre, ao tomar o último gole da melhor cerveja do mundo, transmutada, com magia, a partir de água benta, um dos Três Caídos vem levar a alma do defunto para o inferno. No acordo, o demônio só poderia levá-lo até a meia-noite, caso contrário, esta estaria livre.

John decide dar uma última cartada para ajudar a alma do amigo: serve a cerveja de água benta para o demônio, que não gosta nada da experiência, sumindo e não conseguindo levar Brendan, mas prometendo buscar Constantine.

Se antes John não queria morrer, agora ele não podia morrer.

A partir daqui, John pede ajuda para alguns amigos - e para outros não tão amigos assim - sem sucesso. Até que consegue elaborar um plano simples, mas audacioso, que acaba por salvá-lo, pelo menos por enquanto.

O desenhista Will Simpson - hoje mais conhecido por transformar em imagens as descrições de George R.R. Martin nos storyboards de Game Of Thrones - mantem a estética dos números anteriores, retratando uma Londres decadente, calcada no real, mesmo quando mostrar as entranhas é necessário.


Hellblazer: Hábitos Perigosos pode não ter sido a melhor coisa escrita por Garth Ennis, mas certamente foi um divisor de águas em sua carreira: ele vinha substituir Jamie Delano (que ficou 40 números no título) naquela que seria sua primeira incursão nos quadrinhos americanos.


Título:
Hellblazer: Hábitos Perigosos
Autor: Garth Ennis (roteiro) e Will Simpson (arte)
Tradução:  Fabiano Denardin e Guilherme da Silva Braga
Editora: Panini Comics
Ano: 2014
ISBN: 9788594541185
Ficha técnica completa no Guia dos Quadrinhos