15 de janeiro de 2019 Reviews e Análises
Não é morte se você recusá-la.

Eric e Shelly nunca estiveram tão felizes: eles irão se casar. Voltando da comemoração do noivado, porém, o carro de Eric enguiça e eles ficam parados em uma rodovia. Um bando de marginais acaba aparecendo. Talvez por culpa das drogas ou pelo mal que carregam em si, eles matam Eric com um tiro na cabeça, não sem depois estuprar e matar Shelly. O que ninguém poderia prever é que o Corvo, aquele que leva a alma dos mortos, daria uma segunda chance a Eric, para acertar as contas com aqueles que acabaram com sua felicidade. 

Não existe motivador mais eficiente para uma história que a vingança. Desde de O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas tem sido assim. Dúvida? O que dizer de Batman, Kill Bill, Cabo do Medo e (até) Avenida Brasil? A lista de histórias é gigantesca e só expõe uma verdade: que somos grandes revanchistas e mais do que a justiça - que tem uma dose de humanidade - queremos que o outro sofra na mesma proporção que sofremos. A história de James O'Barr é sobre vingança, mas toda ela  motivada por algo realmente maior: o amor.


Recheada de poesias - próprias e de autores como Arthur Rimbaud e Rose Fyleman - e referências - Sete Samurais, Hieronymus Bosch, The Cure e Joy Division - a obra nos apresenta um protagonista complexo, que transforma-se naquilo que mais odeia, mas sem deixar a matéria do que é feito para trás. Eric, agora Corvo, é cheio de nuances que vão além do ódio, construindo um dos mais incríveis arcos de desenvolvimento de personagem das HQs.

Por vezes a arte incomoda, e é proposital. Quando o protagonista está em ação, os desenhos parecem extremamente sólidos, pesados e fora de proporção e é aí que a violência predomina. É como se o artista quisesse nos mostrar todo aquele mar de violência e drogas em sua forma mais crua. 


Quando saltamos para um dos vários flashbacks, a arte parece querer nos contar outra história: tudo é lírico, delicado e fluido.


Assim é o interior do nosso trágico herói, essa conjunção de amor e violência, que pode parecer paradoxal, mas que O Bardo - que não é referido na história, acho que seria fácil demais - resume muito bem, não por acaso em Romeu e Julieta, na boca de Frei Lorenço

Esses prazeres violentos tem fins violentos,  E morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, 
Que, ao se beijarem, se consomem.
O mais doce mel repugna por sua própria doçura,
e seu sabor confunde o paladar.

No Brasil, O Corvo foi lançado pela Pandora Books (selo Planetário), de 2003, com um prefácio lindo, escrito pelo autor especialmente para a edição brasileira. Ano passado a Darkside lançou uma nova edição, com todo o cuidado que já conhecemos da editora: luxo e em capa dura.



Título:
 O Corvo
Autor: James O'Barr
Tradução: Érico Assis
Editora: Darkside
Ano: 2018
ISBN: 9788594541185
Ficha técnica completa no Guia dos Quadrinhos