31 de maio de 2017 Reviews e Análises

Quando vou escrever um texto me imponho uma pergunta a ser respondida e, pela primeira vez, fiquei quase uma hora olhando para a tela do computador sem escrever nada, enquanto lia repetidamente "O que a Mulher Maravilha representa pra mim?"

Toda vez que repetia a pergunta, uma torrente de ideias e ideais se confundiam. Parei tudo e fui até ao que achei que seria a minha grande fonte: minha estante de quadrinhos. Entre o final da minha coleção do Batman, apoiada em Bruce Wayne: Fugitivo, e o começo da minha coleção do Superman, iniciada com Para o homem que tem tudo de Alan Moore, estavam os volumes e encadernados da Mulher Maravilha. Ri ao perceber a posição, pois não foi intencional. Tirei os volumes da estante e, enganchado em um deles estava uma revistinha de 1983 da Luluzinha.

Para a ciência a memória é acionada quando um bando de neurônios recebem sinais nervosos dos axônios de outro bando de neurônios. Chamam isso de sinapse. A ciência que me desculpe, mas a memória é como um truque de mágica: basta um gosto, um cheiro, um toque, uma música e toda uma experiência, uma sensação, um sentimento simplesmente aparecem. Para mim bastou a Luluzinha.

Lembrei-me de uma garotinha que, ainda não alfabetizada, saia carregando um gibi na mão pedindo para os adultos lerem para ela. A impaciência deles e a desconfiança dela - “é isso mesmo que está escrito aí?” - fez com que seu grande sonho de criança fosse ir para a escola para aprender a ler. Esta epopeia só tinha descanso quando sua mãe ligava a TV e ela ouvia:

Super-Homem, Mulher Maravilha, Batman e Robin, Aquaman, Vulcão Negro, Samurai, Chefe Apache, Eldorado. Juntos formam a maior força do mundo, dedicados a Liberdade, a Paz e a Justiça, para toda a humanidade. Eles são os Super Amigos.

Eu adorava a Mulher Maravilha dos Super Amigos! Ela era inteligente, forte, bonita e tinha um jato invisível – gente, um jato invisível! - mas, todo esse amor tinha um motivo principal: ela fez com que eu entrasse nas brincadeiras dos meninos. Eu fui criada cercada de meninos e, enquanto meu irmão e nossos amigos eram o Super-Homem (ninguém falava Superman na época), o Batman e o Aquaman – vai entender cabeça de criança – eu era a Mulher Maravilha. Nenhum deles dizia que eu não podia bater em um vilão ou que não podia pilotar um avião. Tínhamos a mesma importância no grupo – certo, talvez o Aquaman não tivesse – brincando juntos e, o mais importante: em pé de igualdade.

Acredito que tudo o que vivemos criam a matéria do que somos. Mais que ossos, músculos, pele e gordura – é tá difícil – somos feitos de experiências e emoções que, mesmo não estando na superfície, refletem em nossas ações e ideais. Sendo assim, respondo de uma vez a minha pergunta: A Mulher Maravilha, em um momento importante da minha – ainda pequena – vida foi a representação que eu precisei e participa, ainda hoje, do meu ideal de igualdade.

Mais leve, sabendo que o texto sairia, retornei todas as publicações para seus lugares na estante – “será que devo mantê-la onde estava, entre esses dois?”: - menos Mulher Maravilha: Deuses e Mortais de George Perez. Lembro que, quando li, fiquei maluca pela mitologia grega, mas esta já é uma outra história...