01 de fevereiro de 2017 Reviews e Análises

Sempre brinco que eu não vivi nos anos 80, eu sobrevivi a eles. Dessa década maluca em que usar blusas com ombreiras e calças baggy (juntas!) era considerada uma boa ideia, o ano de 1986 deve ser lembrado, principalmente na cultura POP, como um marco. Se os ótimos artigos de Valdir Fumene Junior, aqui no Portal Refil, revivendo clássicos como Curtindo a vida adoidado e Conta Comigo não são argumentos suficientes para sustentar essa importância, que tal saber que os quadrinhos lançados nessa época foram essenciais para viabilizar toda esta onda de super-heróis nos cinemas. Exagero? Acredite, não é!

O Cavaleiro das Trevas 

Quando Frank Miller imagina o mundo em que o vigilantismo é proibido por lei e o único super-herói em atividade é o Superman - encoleirado pelo governo dos EUA - ele já tinha consagrando-se na indústria por alavancar as vendas de Demolidor, no início dos aos 80, e por ter produzido, junto com Chris Claremont, a minissérie Wolverine

O tom mais adulto e violento, mostrando Bruce Wayne não como o excêntrico milionário fantasiado em busca de vingança, mas como um homem amargurado e assombrado pelo seu passado, na melhor versão de Dirty Harry depois de Clint Eastwood - que Miller confessou ter sido uma de suas referências - parece ter sido a escolha não só de Tim Burton em seu Batman de 1989, mas também de Christopher Nolan na trilogia terminada em 2012.  

Na HQ, com os super-heróis aposentados e a crescente onda de calor e violência em Gotham City, o Cavaleiro das Trevas ressurge com todas as limitações da idade, acompanhado de uma garota vestindo o manto do Menino Prodígio e disposto a limpar a cidade de sua nova ameaça, uma gangue que se intitula "mutantes", nem que isso o leve a um duelo com o homem mais poderoso do mundo: o Superman.

Neste universo Miller traz de volta o Coringa (que sai do estado catatônico ao ver a volta de Batman em uma reportagem de TV), Harvey Dent, Selina Kyle e Oliver Queen, o Arqueiro Verde, que tem a melhor participação de todos os tempos!

O Cavaleiro das Trevas trata a trajetória de um homem, um ser humano, e é crível colocá-lo no “mundo real” mesmo esse sendo o Batman. Mas, como tornar verossímil seres superpoderosos vivendo conosco e fazendo o que deve ser feito?

Watchmen

O roteirista Mark Waid - responsável por Reino do Amanhã - além de toda a consultoria dada para outros meios quando o assunto é o Homem de Aço - quando convidado a recontar a origem do Superman, em 2002, confessou ficar sem resposta ao ser questionado por Dan Didio, Editor Executivo da DC Comics, da motivação das boas ações da personagem. “Por que ele faz o que ele faz? ” Waid tenta responder em Superman: O Legado das Estrelas, mas podemos acreditar que um ser extremamente poderoso, que poderia subjugar todos os habitantes deste planeta e viver como um Deus quer apenas ser aceito para, enfim, ter ter seu lugar neste mundo? Alan Moore parece não concordar!

Em Watchmen, os vigilantes fantasiados, que surgiram com a greve dos policiais, foram proibidos de atuar pela Lei Keene em 1977. Dois deles, porém, continuam na ativa: Doutor Manhattan e Rorschach. O primeiro, arma de Nixon que faz os EUA vitoriosos na Guerra do Vietnã, ainda trabalha para o governo. O segundo, um sociopata desajustado socialmente, que continua trocando sopapos com a marginália, porém longe dos holofotes, nas sombras. Alguém arrisca paralelos?

Nada do que for escrito aqui será tão relevante quanto própria experiência de ler Watchmen. Apenas quero deixar, como uma reflexão para uma possível resposta à pergunta feita por Didio a Waid, uma das falas mais emblemáticas do único ser superpoderoso da obra:

Um corpo vivo e um corpo morto contém o mesmo número de partículas. Estruturalmente não há diferença discernível. Vida e morte são abstrações não quantificáveis, por que deveria me importar? 

Outras HQs como Maus (Art Spiegelman) e Monstro do Pântano (escrita por Alan Moore) também são contemporâneas a O cavaleiro das Trevas e Watchmen, mas, certamente, 1986 pode ser conhecido como o ano em que imaginamos os super-heróis poderiam ser tão reais quanto nós!