20 de novembro de 2016 Críticas

Lembro-me bem quando em 2001 fui ao cinema para ser apresentado ao mundo mágico criado por J. K. Rowling. Como foi encantador acompanhar a jornada de Harry, Rony e Hermione por 10 anos! Em 2016, após cinco anos de espera desde o último filme da saga de Harry, Animais Fantásticos e Onde Habitam trás de volta aos cinemas o mundo mágico de Rowling - e como é bom visitar essa magia novamente, mesmo que em um contexto completamente diferente. Dessa vez a história se passa em outra época, noutro lugar e com personagens desconhecidos que possuem diferentes desafios. Mas é claro que as referências (sutis e naturais) aos filmes originais não foram deixadas de lado (para a alegria dos fãs).

Newt Scamander (Eddie Redmayne) é um magizoologista (estudioso das criaturas mágicas) que viaja o mundo catalogando animais fantásticos. No ano de 1926, numa viagem aos Estados Unidos, Newt esbarra em Jacob Kowalski (Dan Fogler), um não-mágico ou "trouxa", e acidentalmente escapam alguns animais de sua maleta. Em meio aos perversos ataques de um poderoso bruxo das trevas, Newt e Jacob saem em busca dos animais perdidos e para isso contam com a ajuda de Porpentina Goldstein (Katherine Waterston), uma funcionária do Congresso Mágico dos Estados Unidas da América (MACUSA) e sua irmã Queenie Goldstein (Alison Sudol).

J. K. Rowling, que já se mostrou uma ótima escritora de livros, aqui assina pela primeira vez um roteiro cinematográfico - e que bela estreia faz a britânica! Rowling escreve um roteiro inteligente ao conectar linhas narrativas (em suas tramas e subtramas) e personagens com diferentes ambições, completando os arcos destes e deixando bem clara a função de cada um no decorrer da narrativa. Merece crédito também pela ótima ambientação que faz aos anos vinte nova-iorquinos (e nesse aspecto o figurino do filme faz um trabalho fabuloso) em pleno período de Lei Seca (onde era proibido o comércio e consumo de bebidas alcoólicas). Bate de frente também com o sistema político dos EUA e suas leis retrógradas, além de combater o preconceito de forma sutil. Tem um pouco de tudo no roteiro de Rowling - e o melhor: nada é gratuito, tudo tem função. Os recursos de construção são usados com maestria, aproveitando todas as camadas do roteiro. Arrisco dizer que não teria pessoa melhor para roteirizar o filme do que a própria criadora do universo mágico, que agora tem a liberdade de criar uma história nova em cima do próprio roteiro, já que este não é uma adaptação de seus livros (como na saga Harry Potter) e sim uma inspiração do livreto didático que dá o mesmo nome ao filme.

É encantador ver as curiosidades do mundo-bruxo que seriam equivalentes aos do mundo não-bruxo. Como por exemplo na cena do bar bruxo clandestino, onde os elfos domésticos atuam como garçons, cantores e bartenders ou no plano em que os elfos "engraxam" as varinhas dos bruxos, polindo-as. Ponto positivo para o diretor David Yates (responsável pelos últimos quatro filmes da saga Harry Potter) que retrata o funcionamento de certos artifícios como roupas sendo lavadas sozinhas, máquinas escrevendo e papéis se auto-picotando de maneira natural, sempre em segundo plano, como se fosse um bônus para os fãs - e toda as cenas de magia e com os animais fantásticos são extremamente bem trabalhadas com efeitos visuais dignos de Oscar, proporcionando uma ótima experiência visual (recomendo inclusive o uso da boa versão 3D do filme).

São perceptíveis as várias atmosferas que permeiam o filme, passando por ambientações felizes e sombrias. Com isso, a fotografia de Philippe Rousselot traz uma Nova Iorque dessaturada que reflete na personalidade dos habitantes. Aliás, James Newton Howard é extremamente feliz ao compor a trilha sonora do filme, sendo eficiente ao dar o tom "mágico" ao mesmo tempo em que homenageia os filmes da saga de Harry - e o próprio John Williams.

Com uma produção tão cuidadosa, o elenco não poderia ser mais acertado. Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa, A Teoria de Tudo) aqui encarna o protagonista Newt Scamander num papel que é perfeito para seu estilo de atuação. Se em filmes anteriores ele entrega atuações estilizadas, ou até mesmo forçadas, aqui representa um Newt com naturalidade, demonstrando a dificuldade do personagem em lidar (e olhar) para as pessoas e a facilidade em lidar com animais (sua verdadeira paixão). Dan Fogler é cuidadoso o bastante para não deixar que seu Jacob seja apenas o alívio cômico do filme, sendo engraçado em momentos pontuais e fazendo de seu caráter algo bem maior. Tina é interpretada por Katherine Waterston como uma tímida funcionária da MACUSA, mas que tem a coragem necessária para agir da maneira correta. Colin Farell dá a frieza necessária a Graves, enquanto Alison Sudol concede afetividade à adorável e sorridente Queenie - e, não podendo ficar de fora da lista, Ezra Miller esconde o medo sombrio sob a apatia de Credence Barebone.

J.K. Rowling mostrou que tem uma imaginação sem limites e que há muito a ser explorado em seu universo. O resultado dessa ótima produção confirma o potencial da nova saga. Fica também o desejo de que os próximos filmes sejam tão mágicos quanto foi a jornada de Harry e seus amigos. Mal posso esperar por 2018.

Nota: 5/5.

Por Henrique Xaxá.