12 de novembro de 2016 Críticas

Dirigido por Oliver Stone e roteirizado por Stone e Keiran Fitzgerald. Com: Joseph Gordon-Levitt, Shailene Woodley, Zachary Quinto, Melissa Leo, Tom Wilkinson, Rhys Ifans e Nicolas Cage.

Snowden conta a história verídica do ex-analista de sistemas da CIA e NSA que, em 2013, tornou públicos os documentos que comprovam a existência do sistema de vigilância e espionagem gerido pelo governo dos Estados Unidos.

Assim como a maior parte de sua filmografia (os excelentes Nascido em 4 de Julho, JFK – A pergunta que não quer calar, e o documentário Ao Sul da Fronteira), Stone produz mais um filme político e que casa muito bem com as perguntas feitas nos anos em que vivemos, questionamentos sobre a ascensão de líderes autoritários ao poder e efeitos da hegemonia de grandes potências sobre nações emergentes.

Snowden, em um interessante recurso de narrativa, conta a história de seu protagonista a partir de uma entrevista, remetendo à própria maneira como o personagem real se fez valer para tornar públicas as suas denúncias. Mais inteligente ainda, os takes das cenas da entrevista criam uma rima visual com o principal objeto das denúncias: a espionagem. Se nestas cenas nos colocamos sob o olhar da câmera que observa as conversas no quarto de hotel onde a denúncia é feita, nas cenas do segundo e terceiro ato nos sentimos diante da mesma posição, mas já como o olhar da Inteligência dos EUA que vigia os seus alvos. Mérito de Stone e de seu diretor de fotografia, o ganhador do Oscar Anthony Dod Mantle.

A maneira como Stone conduz sua direção ao longo do filme é o que dá o peso e o clima de tensão que se cria a partir do segundo ato. Tal tensão é potencializada quando, com recursos de linguagem, os realizadores empurram nossos pés ao chão e respondem o quão impossível é lidar com essa estrutura global de controle de informação, o “vilão” da história. Em uma cena em que Snowden (Gordon-Levitt) é interrogado por seu antigo mentor, Corbin (Ifans), por meio de uma videoconferência, Stone e Mantle filmam sob uma perspectiva que engrandece a figura de Corbin, elucidando o poder massacrante do Estado diante de qualquer ameaça ou questionamento aos seus métodos utilizados, enquanto a silhueta de Snowden é filmada sob uma escala muito menor em relação ao personagem da videoconferência, apequenando as capacidades do analista frente à robustez e opressão do sistema representado por Corbin. 

Interpretando o jovem denunciante, Gordon-Levitt confere uma atuação muito digna da personalidade que apresenta o real Edward Snowden, oferecendo um trabalho vocal extremamente verossímil (você se sente ouvindo o próprio Snowden) e que é muito fiel com os seus trejeitos e postura.

Assim, Snowden se mostra um documento essencial para os dias atuais, onde as liberdades individuais voltam a serem cerceadas pelo Estado e as motivações para derrubada de governos progressistas se tornam cada vez mais claras. É a síntese do que é uma guerra cibernética e da descomunal supremacia dos EUA sobre as demais nações do mundo. Nas palavras do próprio Stone, “guerra digital vira guerra física”.

 Nota: 4.0/5.0

 Por Antônio Junio P. de Araújo.

"Cinéfilo por dedicação. Gosta de arte, música e política. Pode ser encontrado no Instagram."